segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte III final

O Pai de Santo
# Parte 3 #
Pai Arruda
conto psicografado em 16/03/2014 por Jennifer Dhursaille






Um crê em si mas duvida de todos os outros e até das entidades. Outro que admira a luz nos outros mas não admite que ela possa brilhar também em si. Que bela dupla! Vamos juntar para ver se a acidez de um anula a amargura do outro. E quem sabe dessa mistura não se adoça a vida de ambos. Tá me entendendo, num tá?”

Seu 7 Encruzas para Marita durante a primeira incorporação de seu médium Valtinho, pedindo a esta que o apresentasse a Eustáquio.

             

   Eustáquio preciava de um milagre; Valtinho de um choque de realidade.
                Quando dois sacerdotes, com potencial para ajudar a muitos, arriscam se perder – não por frescura! Mas por ferimentos reais dos espinhos que acompanham o poder – logo o Astral vem em ajuda, para não deixar cair do ninho passarinho que foi feito para bem longe voar.
                Marita procurou Eustáquio, por ser este mais experiente, a fim de buscar ajuda para seu amigo Valtinho. Explicara a situação, que o cético pai de santo um tanto curioso ouvira.
                - Mas ele tem o chão* dele aberto, não tem?
                - Tem, que herdou da família, mas na prática quem toca são as tias e as irmãs, que ele está cada dia menos interessado. Ele foi assim, meio que entronado à força no cargo pela vontade da avó, não sabe?
                “Que nem eu” - pensou Eustáquio.
                - Mas agora está louco para largar tudo e ser professor. Vai fazer faculdade e acho até que é por isso que aconteceu o que aconteceu e que eu estou aqui te contando. Como eu disse, ele nunca tinha incorporado esse tipo de entidade de Umbanda, só orixá vinha nele, às vezes, quando ele tava mais de boa vontade lá no terreiro e quando era uma das tias que ele gostava que tava tocando a roça... Porque se fosse uma que ele não gostasse, ele nem aparamentado ia, só pra fazer desfeita mesmo! Nem tava nem aí pro santo!
                - E como é que ele tá agora?
                - Assustado! Assustadíssimo! Ainda mais que não se lembra de nada do que o exu disse. Tive eu que passar pra ele todos os recados, e o principal deles era que esse exu falou que queria que ele fosse ter uma conversa sobre Fé e Responsabilidade com um bom pai de santo daqui. Daí falei: “Ó, Valtinho, o único pai de santo bom, de moral ilibada que a gente conhece aqui na baixa é Pai Eustáquio. Eu, fosse tu, ia lá falar com ele.”
                - Diga para ele vir na sexta, lá pelas três da tarde que eu vou jogar os búzios e ver o que sai pra ele; se tiver alguma obrigação, algum impedimento, ele, sendo pai de santo também vai saber o que fazer. A minha parte eu faço, agora... aceitação, você sabe, né Marita, é coisa de dentro de cada um!
                - Eu sei, é claro, Pai Eustáquio, mas embora assim teimoso feito mula, Valtinho é menino de muito bom coração. Merece uma segunda chance, não só de orixá mas também, eu acho assim, na minha opinião, de ouvir uma palavra de alguém assim mais sério, porque sempre fez as coisas mais empurrado pela família dele. Às vezes a juventude de hoje precisa entender melhor os 'porquês'. O que sempre irritou Valtinho foi dizerem que ele tinha que fazer as coisas por obrigação, porque tinha e pronto! Isso foi deixando ele indignado, entende?
                - Eu entendi. Diga a ele que se quiser jogo os búzios. Que venha na sexta.
®
                E sexta chegou com Valtinho pela primeira vez na vida adiantado, cerca de quinze minutos, batendo à porta da frente da casa de Pai Eustáquio de Xangô Airá.
                Eustáquio abriu a porta e estranhou. “Menino de tudo” - pensou. Olhar tão jovem num semblante infantil atormentado. Pena veio instantaneamente, e no combustível da compaixão, Eustáquio convidou o menino-pai-de-santo a adentrar o barracão; o pôs à vontade sentado na parte posterior do templo reservada aos atendimentos, e deixou-o contar, abrir seu coração, de cada dúvida, medo e emoção que Valtinho experimentara, desde os 9 anos na lide de futuro pai de santo escolhido do seu barracão. Ele tinha sangue real**, isso Eustáquio podia ver, e experimentara coisas que se fora consigo, muitas de suas dúvidas não existiriam. “Como então?” se questionava, se a experiência real ele tinha, por que duvidaria? Eustáquio tinha mais estudo, mais palavra explicada e uma maior tendência à filosofia, mas no terreno da comunhão com as energias únicas de orixá, Valtinho saia de longe na frente. Só não estava acostumado a 'compartilhar' seu corpo e sua mente com o que considerava um “egun”, o misterioso homem de roupas escuras e abotoadura de ouro que lhe enroucara a voz e deixara bem claro à sua amiga Marita, no lumiar da noite, numa esquina noturna onde nem sapo coaxa e nem coruja pia:
                “ - Esse não vai sair do serviço, não! Pode avisar: é 2 passo pra fora e 7 pra dentro do barracão! Quer ir estudar, pode, mas se quiser, vai ser doutor de branco e palha da costa, sentado na cadeira que é o trono dele lá no barracão!”
                - Como é que pode a gente não ser dono da vida da gente!? - inquiriu esperançoso da compreensão do colega de vaticínio.
                - Mas tudo tem um porquê, né, Valtinho? Uma coisa que minha avó sempre dizia, e que até hoje não posso de tudo desdizer, é  que orixá sabe o que vai fazer de fato a gente feliz na vida da gente, e a gente que às vezes foge do próprio destino no desejo de experimentar coisas diferentes.
                - É, isso é... Mas, me diga uma coisa: Marita me contou que você também foi feito por sua avó, que também herdou cargo hereditário. Você nunca se perguntou o que teria sido da sua vida se suas escolhas tivessem sido diferentes?
                - O tempo todo. Não tem um dia em que eu não me levante da cama e ao fazer a barba diante do espelho não me imagine vivendo uma vida completamente diferente – concluiu, a ver perplexa a face de Valtinho ao espelhar a sua própria frustração.
                - E por que você nunca largou tudo?
                Eustáquio riu e fez sinal para uma mocinha trazer um chá gelado para os dois.
                - Porque lá pela minha terceira xícara de café eu já me lembrei porque é que eu estou nessa vida e não fui embora ontem, nem anteontem, nem antes de antes de ontem...
                - Obrigado pelo chá – dirigiu-se tanto a Eustáquio como à menina. Aliás, sem querer interromper, já interrompendo, é só uma coisa que eu queria comentar desde que cheguei aqui! É que eu acho lindo, lindo seu orixá! Desde menino meu sonho era receber Xangô Airá! Juro!
                Eustáquio riu; Valtinho era muito engraçado, de uma espontaneidade natural que contrastava com a parcimoniosa ponderabilidade do pai de santo mais velho.
                - Você recebe quem na sua coroa?
                - De verdade, de verdade mesmo, quem eu mais sinto é Iansã, mas minha avó decidiu por bem passar Ogum na frente*** e me entregou a ele, o que obviamente não adiantou nada! Então, embora eu não use o título, o certo mesmo é Pai Valter de Ogum Dilê. Ai que horror! O santo que me desculpe, mas eu acho uó esse nome! Preferia ser mil vezes Pai Valter de Iansã, porque é muito mais a minha cara, vamos combinar?
                - Eu era de Logunedé – disse num suspiro, depois de respirar fundo, pai Eustáquio.
                - Num brinca? - exclamou sério, Valtinho.
                - Minha avó, aparentemente pelo mesmo motivo da sua, passou Airá na minha frente. Dizia ela que queria garantir a sucessão do terreiro através de uma filha minha.
                - Você é casado? Já tem filhos? - perguntou um tanto receoso da resposta.
                - Não, e duvido que vá ter! - respondeu Eustáquio balançando a cabeça – Já tenho problemas demais para cuidar e minha avó ainda queria me arrumar uma família! Já chega a do terreiro!
                - Ah, bom! Bem, sempre se pode adotar, num é mesmo? Vai que um dia você se casa e adota uma menina bem porreta daquelas que a gente olha e já sente que vai girar muito no barracão. Daí ela fica sendo a sua herdeira! - sugeriu com certo excesso de entusiasmo Pai Valter de Ogum Dilê.
                Após alguns instantes de silêncio, Eustáquio retomou o rumo da conversa:
                - Mas, então, como te falei, eu acho que estudar vai dar o equilíbrio que você está precisando na sua vida e na sua idade. Eu noto que você se incomoda muito com o desrespeito dos outros. O diploma vai melhorar a forma como você se vê e também ajudar a seus filhos no terreiro a repensarem o seu próprio valor e poder dentro da comunidade.
                Valtinho estava encantado com tudo o que Pai Eustáquio falava. Um sorriso amplo no rosto que parecia que jamais o deixaria. Mas deixou. Assim que Pai Eustáquio a figura de preto evocou.
                - Quanto ao exu de Umbanda que você recebeu, estão cada vez mais comuns as manifestações dessas entidades, que não devem ser consideradas 'eguns', mas sim como manifestação da nossa ancestralidade coletiva nos ilês. Aqui mesmo no meu tem quem receba preto-velho e boiadeiro, uns dois recebem exu e bombogira catiços assim que nem esse que você recebeu; caboclos todos recebem – isso desde o tempo  do segundo marido de vóinha. Eu mesmo com quinze anos já recebia dois caboclos diferentes; você não deve de se espantar, não, muito menos de ter medo.
                - Mas eu já vi Exu Elegbara, tem um filho dele no barracão. É uma coisa muito diferente, viu? Não só no visual como na energia que a gente sente. Eu até agora não sei categorizar esse ser que me dominou na frente de um poste e conversou com Marita através de mim cerceando todos os meus intentos! Ai, me desculpa, mas acho muito desaforo!
                - Olha, Valtinho, eu sinceramente não tenho a experiência em 1ª pessoa no nível que você tem. As minhas dúvidas todas vêm do fato justamente de que eu queria uma prova assim cabal, que acontecesse alguma coisa que quebrasse a minha vontade em quatro, não me deixasse argumentos e nem escapatória para eu 'achar' mais nada que não fosse a realidade inquestionável do fato, e nada mais do que o fato fizesse qualquer sentido. Embora eu te entenda, do meu ponto de vista você foi abençoado e não 'cerceado' porque você nunca vai ser atormentado pelo tipo de dúvidas que eu tenho, que, acredite, são bem difíceis de lidar!
                - Mas Eustáquio, você passa uma firmeza, uma certeza de que sabe daquilo que está falando para os outros! Eu queria poder passar uma imagem assim para os meus filhos de santo, mas eu sou muito 'tranqueira'...
                - Não fale assim! Se orixá escolheu você é porque sabia que você podia dar bom fim à sua missão e ao sagrado serviço de representá-lo na sua comunidade. Só não será assim se você não quiser.
                - Foi bem isso que o tal Exu das 7 Encruzas falou para a Marita... que ele não ia deixar eu me desviar da rota que já existia para mim...
                - Me parece que o que te incomoda é a noção de que os outros estão escolhendo o teu destino, e não você...
                - É isso! Exatamente isso...
                - Mas veja, se foi você que determinou, junto ao orixá antes de nascer qual seria o teu caminhar nestas bandas do lado de cá, daí você pode encarar esses recados do seu 7 Encruzas como um lembrete de você mesmo para que você não se esqueça da jornada que decidiu lá atrás que queria trilhar.
                - Se for assim, daí o seu 7 Encruzas deixa de ser um inimigo enxerido para ser meu melhor amigo; aquele que vem me lembrar do que eu mesmo quis, mas esqueci. Não é isso? - elaborou Valtinho, dando seu melhor modelo de aluno exemplar.
                - Eu costumo dizer que a amizade se prova com o tempo, tanto as com o povo daqui como com os seres do lado de lá. Mantenha a calma e espere para ver como as coisas se encaixam com você seguindo os dois caminhos, o acadêmico e o espiritual. Vá equilibrando como se fossem duas obrigações distintas mas que se cruzam na garantia do bom sucesso da sua missão.
                - Vou fazer isso, sim. Ai – segurou nas mãos do novo amigo – foi tão bom ter vindo conversar com você!
                - No que precisar estarei sempre à disposição – respondeu um tanto tímido, meio sem jeito, mas pleno de retidão e a melhor intenção, o pai mais experiente.
                Despediram o mais novo e o mais maduro, um caminhando mais tranquilo, o outro adentrando o lar com o coração mais cheio de esperança. De longe veio o grito, lá do meio da rua mesmo, fruto da ansiedade do menino-homem em aliviar sua curiosidade e tormento:
                - Ô, Eustaquinho, diga lá, o que é que aquela terceira xícara de café lhe faz lembrar que você não desiste pra tudo largar?
                Eustáquio respondeu sorrindo:
                - Tem sempre alguém no mundo perdido, precisando de um ombro ou de uma palavra amiga.
                - Assim que nem eu? - riu-se andando pra trás o Valtinho.
                - Que nem eu!

*terreiro
** mediunidade
*** uma prática comum, embora equivocada, em alguns terreiros que consideram que determinadas filiações de orixás induzem ao homossexualismo, e por isso, tentam 'mudar' o orixá de cabeça da pessoa entregando-a a outro
               

  Originalmente
Esse conto foi publicado em três partes, quinzenais.
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Jennifer Dhursaille


domingo, 14 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte II

O Pai de Santo
# Parte 2 #


Pai Arruda
conto psicografado em 09/03/2014 por Jennifer Dhursaille
Valtinho vinha no ônibus, após dar entrada nos papéis para sua inscrição em um dos planos assistenciais para alunos de famílias de baixa renda e minorias, que antes desprezadas, agora visadas eram nas investidas governamentais para dominação das massas. “Caridade” Valtinho sabia que não havia, nem era disso muito menos que necessitava, visto que 'a nação do futuro' de impostos já lhe cobrara muito mais do que devia, sem o 'troco' ao menos lhe devolver dessa 'parceria', entretanto avançar Valtinho necessitava na vida, e para sair da soleira da estagnação estudar, ele sabia, era do que mais carecia. Uma bolsa universitária ele solicitara, e se sorte tivesse ou a Justiça se fizesse, a Matemática, a Logística ou a Física Robótica para a Medicina Integrativa logo um novo gênio teria. Com o pensamento longe, um cutucão no seu cotovelo e ombro esquerdos lhe tiraram o olhar perdido ao largo a vaguear pela janela:
- O quê?!... - exclamou massageando o ombro dolorido e procurando explicação, ou pelo menos um pedido de desculpas do descuidado agressor.
Mas já ia para além do meio da condução o passageiro de chapéu, casaco e calças escuras, que sem lhe olhar na face o saudou:
“- Boas noites, professor...”
Professor ele seria, ou pelo menos é o que pretendia ser, de alguma coisa assim bem digna, real refúgio do saber, onde os anos de olhares dúbios e comentários jocosos aturados por uma vida inteira de quem viu sua infância e adolescência transcorrer de dentro de um barracão pudessem enfim ser esquecidos e respeito – daqueles dos bons – lhe deveriam todos os seus vizinhos; não mais por ser pai de santo, mas pelo canudo em Exatas que estaria sempre pronto a voar nas ventas daquele que ousasse mais uma vez chamá-lo de 'neguinho sem educação'. Mas como aquele senhor de voz grossa e roupas impropícias para o calor da Bahia disso sabia, ele idéia não fazia. Considerou então o óbvio:
“Deve ter me confundido com um outro alguém.”
Ônibus encheu, quase uma hora passou, mas ainda faltavam vários minutos até que Valtinho o seu ponto de chegada avistaria quando, como de costume, a muvuca se formou nos dois pontos de principal afluxo/defluxo de passageiros, o ponto do mercadinho do Chico e da farmácia ao lado da Sapataria Central. Valtinho estava sentado no banco imediatamente à frente da saída intermediária da lotação, e podia por isso até sentir na nuca o vento causado pela movimentação da descida da afligida população. Instintivamente inclinou-se para frente, a fim de que alguma dona de casa abarrotada de sacolas não lhe batesse com a bolsa na cabeça durante a eufórica evasão do único meio de transporte oferecido à sofrida povoação. Foi quando sentiu uma mão pesada a lhe segurar a nuca, e novamente a voz arguta a lhe estremecer o coração:
“- À noite venho ter contigo, para uns nossos assuntos resolver.”
Valtinho levantou-se de pronto para avistar aquele estranho senhor, mas entre lenços de cabeça e bolsas, muitos braços e quadris das avós protegendo crianças, só avistou a saída de um braço pela porta afora, a manga negra e uma abotoadura dourada, antiga, do tempo que há muito já não se usava mais. Pensou:
“Coitado! Vai me esperar sentado, tomando por outro o atraso do que combinou sozinho! Ai, só por Deus! É cada uma que acontece...”
Mas por mais que a lógica assim lhe ditasse, incomodado estava e continuou. Ao chegar em casa, no banho se perguntou:
“E se o tal cara que ele espera lhe deve dinheiro, e ele ache que sou eu, e resolva me apagar? Só me faltava agora que quero mudar de vida me aparecer esse senhor me tomando por outras negas e me cobrando de algo que eu nem fiz! Valtinho morto pelo pecado alheio? Credo em cruz! Valha-me, Nossa Senhora!”
Nem sabão nem o sal, do banho ou da janta com tia Nezita, fizeram Valtinho esquecer a sensação de mal estar. Valtinho desceu as escadas da varanda após concluir que devia 'cheio de egun*' aquele homem estar - “só podia” - para justificar o desassossego que sentia.
- Quer saber? Eu vou pro bar, com meu povo papear. Alguém há de lá estar para minha mente refrescar antes de eu ir para casa dormir!
E pro bar dos amigos foi, mas frequência muita lá não tinha, só uns três gatos pingados mais a garçonete Marita mais o dono, seu Jarbas. Amigo mesmo nenhum, só mesmo a no batente Marita.
- E aí, meu nego lindo, que manda? - disse a mulata aos quarenta sorrindo.
- Ai, amiga, nem te conto! Vim exorcizar umas energias ruins por aqui!
- Oxi, mas se o pai de santo não dá conta do capeta, que vai ser de nós pobre mortais? Hein, seu Jarbas?
- Pois é... - começou o dono, falando o que sempre falava fazendo o que sempre fazia quando algum cliente tentava lhe puxar para qualquer conversa: lavava e secava mais um copo.
- Olhe só, minha nega, pra começo de conversa, quem exorciza o demo é padre, e não pai de santo. Pai de Santo oferece marafo pros 'rabo de encruza'* deixar ele em paz! Mas nem é por isso que eu vim aqui, porque se você quer saber, eu tô quase terceirizando o terreiro, deixando tudo nas mãos da mãe-pequena, que agora eu vou é cuidar da minha vida prática. Eu vou ser professor! Tá bom pra você? Agora me dá aí uma...
Marita ria largada do jeito de Valtinho. Só por hábito chamou seu Jarbas, que deu seu “pois é” e lavou mais dois copos, mas não percebeu a cara de quem viu assombração do pai de santo, que olhou pra baixo, para fora, pro lado e para Marita novamente, na terceira vez em que ela insistiu em lhe perguntar qual a preferência da bebida para a noite.
- Me dê aí – disse ele lento – qualquer coisa doce e forte.
- Doce e forte é catuaba! Vai aguentar depois o tranco?
- Deixe de dengo e traga logo essa bebida – respondeu Valtinho se encostando no banco ao balcão.
Só de olho ficou, branco e apavorado, observando a figura de negro à mesa perto do portão à esquerda dos engradados por consignação. Cabeça baixa, bebia o que parecia pinga, cruzava os dedos onde se via um anel – coisa cara, grande e fina, a pedra quadrada vermelha luzia – entre os pelos da mão que subiam até encontrar no punho o fecho com a abotoadura, o paletó, os sapatos, a cartola à mesa e a barba baixa. Olhar não lhe dirigiu; solene, somente à garrafa atenção estendia.
Marita acabou por perceber que algo não ia bem com Valtinho. Chegou-lhe agora com outro tom, e lhe indagou:
- Que foi, meu lindo? Diga pra Marita o que está lhe desassossegando?
Ele a olhou e fez sinal para o local discretamente, para que ela visse o misterioso homem. Marita olhou e fez cara de indagação.
- Faz tempo que ele está aqui? - perguntou mais com os lábios do que emitindo sons.
- Não...
- Você sabe quem é?
- Não... Eu...
- Vi hoje no ônibus – sussurrou o mais baixo que pôde. Me cutucou, disse que vinha tratar de um assunto comigo. Acho que me confundiu com algum outro! Tô com medo que seja algum agiota...
- Acho que não.
- Mas você conhece?
- Não...
- Então, acha baseada em quê? Tá louca!? Eu morrendo assassinado no lugar de outro e você 'achando'
coisa sem pé nem cabeça, mulher!?
- Eu só estou dizendo que acho que agiota não é. Além disso quem não deve não teme...
- Ai, que frase ótima pra você ir falar para um futuro defunto! Eu amanhã morto quero ver você repetir essas idiotices no meu velório!
- Calma, homi, é muito drama pra pouca coisa!
- Como assim pouca coisa? Você já viu as roupas que essa criatura está usando? Quem usa uma roupa dessas nos dias de hoje, me diga? Não é época de carnaval, é o quê, então? Inocente...
- Ele já veio falar com você?
- Se desde que eu cheguei aqui só falei com você, como é que você vem me fazer uma pergunta dessas, mulher?
- Vamos esperar e ver se ele vem falar com você, então.
- Não sai daqui! Não me deixa sozinho, fica de olho nele! Avisa seu Jarbas!
Tudo isso sussurrou nervoso Valtinho e engoliu de um trago sua catuaba. Com o canto do olho observava o homem de preto, que gesto não fazia. No que Marita voltou de pôr umas garrafas no freezer, o pai de santo assustado a inquiriu:
- Já perguntou pro seu Jarbas?
- Ainda não.
- Mulher lerda!... Mas também já sei o que ele ia dizer...
- Pois é...
- Ai, até você, Marita!?
- Calma, homem, você tá muito nervoso.
- Vai lá, oferece outra bebida pra ele. Vê se ele fala alguma coisa.
Marita titubeou.
- Ah, agora tá com medo, né? Cadê a calma toda da realeza, hein?
- É que...
Valtinho olhou e arregalou os olhos.
- Foi embora! Ele foi embora! Cadê, cadê ele? Vai, Marita, corre pra porta, vê pra onde ele foi! Vê se tá com alguém, se tá de carro, se está acompanhado por algum comparsa! Vai senão não saio daqui hoje, durmo aqui dentro do bar, e nem deixo você ir embora também. Se eu for pro Além você vai comigo de companhia, só por não ter acreditado em mim!
-Mas eu acredito, meu lindo...
- Vai, vai sua lerda! Vai ver pra onde ele foi antes que ele suma!
Marita foi devagar, olhou para os dois lados da rua; voltou secando as mãos no avental.
- Nada. Lá fora não tem nada.
- Vai lá, pergunta pro seu Jarbas se ele sabe quem esse homem é.
- Melhor não...
- Como 'melhor não'? Alguém deve saber alguma coisa desse homem, de onde é...
- Seu Jarbas não conhece, não.
- Mas não custa perguntar! Vai lá, vai, Marita! Ai... eu tô nervoso!
-Melhor deixar pra amanhã. Faz assim: eu vou com você até sua casa, pra você ficar mais tranquilo. Seu Jarbas já está fechando aqui o bar e ele não gosta de enrolação nessa hora que é a mais perigosa pra ladrão.
- Sei, com ele cuidado pode, comigo não, né?
- Não estou lhe dizendo que vou lhe acompanhar até sua casa? Vamos, pague aí sua bebida que vou fechar o caixa e lhe levo são e salvo. Ô pai de santo mais medroso que já vi na vida!
- É melhor você ir parando com essa coisa de pai de santo e ir treinando pra ir desde já me chamando de 'professor', que é isso que eu vou ser, viu?
- Sim, senhor, 'Painho Professor”! - riu Marita.
Desceram a ladeira com Valtinho contando tudo de novo desde o ônibus como se lembrava dos ocorridos, e Marita só ouvindo sem interromper. Chegaram em casa de Valtinho, e ele já se preparava pra se despedir da amiga e adentrar o portão, quando rua abaixo, encostado a um poste, o mesmo homem ele viu.
-Marita – disse quase chorando, entre esganiços – é ele! E agora o que eu faço? Chamo a polícia?
-Melhor, não. Se eu fosse você ia lá falar com ele.
- Tá louca? Ele vai me matar!
- Vai não.
- Como você pode saber?
- Porque esse tipo não mata ninguém, não.
- E desde quando você conhece tipo que mata e que não mata?
- É muito simples, meu lindo: morto não mata vivo. Só vivo é que mata.
Valtinho olhou pra ela sem entender.
- Olhe, Valtinho, eu sei das suas dúvidas lá com o 'Blé'**, sei que você herdou o cargo da sua avó mas sempre duvidou se seria você mesmo a levar aquilo tudo adiante, e sei também principalmente da sua indignação com as bestagens que esse povo diz por aí... mas hoje, meu lindo, meu querido 'futuro professor', você tá vendo com seus próprios olhos aquilo que a sua avó já vivia. O que você está vendo não é desse mundo, mas do outro. Do reino de orixá.
- O que é que você tá dizendo, louca?
- Que lá no bar não tinha ninguém, homem nenhum sentado lá onde você falou. Nem lá no poste eu to vendo pessoa alguma. O que você tá vendo é só pra você ver. E não adianta você querer fugir, se ele veio desse outro lugar pra falar com você, você não tem escapatória. Melhor ir logo ter com ele e ver o que ele quer. Desce lá e vai falar com ele. Eu espero você aqui, tá bom?
A calma de Marita poderia ter irritado Valtinho, não fosse ele mesmo já estar se sentindo meio anestesiado pela visão do estranho homem. “Lesa” - ele pensava. “Essa Marita é lesa”... mas a passos largos ele se encaminhava meio que hipnotizado pela figura de negro envolta em luz vermelha junto ao poste. Ninguém mais na rua, além de Marita, viu, quando o exu sua capa no ar balançou e Valtinho em frente a ele se ajoelhou, mãos para trás em garra e uma risada profunda no ar ecoou.
Valtinho, sem escapatória, seu 7 Encruzas incorporou.
* 'eguns' e 'rabos de encruza' são alguns dos nomes e expressões comuns entre praticantes dos cultos afro-brasileiros para designar espíritos já falecidos que vagam entre os vivos, prejudicando-os
** forma curta como alguns se referem ao Candomblé, embora convém deixar claro que, pelas palavras das personagens tanto neste como no próximo capítulo, eles não cultuam o candomblé original, mas uma forma mista entre Candomblé e Umbanda, que não se discute aqui os méritos, mas sim apenas se constata sua existência.
To be continued...
Esse conto será publicado em três partes, quinzenalmente.
Está ansioso pela continuação e não deseja esperar? É simples...
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte I

O Pai de Santo


Pai Arruda
conto psicografado em 15/04/12 por Jennifer Dhursaille


O pai de santo era cético – ainda que dotado de um pouco de respeito. Fora feito pela avó, essa grande catimbozeira, consagrada, segundo ela mesma dizia, nas terras lá da Alhandra. Mesmo as sacerdotisas do Candomblé a tinham em alta conta, e para a que julgou a melhor dentre elas todas – “a mais porreta!” – enviou a filha, Carminha, a fim de ser devidamente, segundo os ritos dos antigos africanos, instituída – “Povo que é bom de mironga tem a pele mais pro café do que pro leite!” – e de antemão já dizia que com um preto retinto a casava, posto que era pra fortalecer o sangue!
Mãe Saninha, a catimbozeira que mudou-se da Paraíba para a parte sul da Bahia, era mulher de muito se temer, pois que acertava errando e perto dela se engasgavam muitos, até mesmo sem comer. Depois da filha mais branquinha, que era sua mãe Carminha, vieram mais sete filhos, pretos ou morenos, filhos de cafuzo ou descendente de escravo, conforme o humor da avó na época em que lhe convinha escolher os maridos. Com cinco anos, o neto no colo da avó ouviu:
“Vai ser de Xangô esse neguinho e é ele que vai tocar os tambor tudo daqui quando eu me for”.
Lhe batizaram com 7, na fé de Oxalá, Jesus Nosso Senhor, e na medida em que cresceu foi assim, de uma em uma potência, apresentado aos Orixás, yorubá e nagô, e aos 18 já tocava, como pai pequeno. Quando do falecimento de um dos avôs, mãe Saninha entristecida, de luto, uma dó só, arretirou-se do terreiro e da vida de autoridade religiosa – maior mesmo que sua filha, que era de fato consagrada. E foi assumindo assim, meio que empurrado, um passo para trás, dois para frente, Pai Eustáquio de Xangô Airá, pela hereditariedade autoridade indiscutível, pela formação também, mas cheio de dúvidas que escondia por trás dos olhos quase verdes que herdara d’algum português.
Não duvidava da vóinha – “Nem era doido, imagina! Quem?” Mulher mais temida não sabia, mas como ela esse poder tinha, isso ele não sabia, nem de filho algum explicação plausível ouvia. Os católicos da baixa do sapateiro diziam ter sido pacto com o demo, e na verdade, nem disso ele duvidava, pois vóinha era de meter medo e arriava todo tipo de coisas nas encruzilhadas, de que nem toda se saberia endereço ou autoria.
“Deus me livre duvidasse de Yemanjá de mãinha, tão linda e serena, quando vinha abençoando os seus filhos com os braços abertos na cadência do mar de Recife”. Nem era porque não tombava sempre, pois todo ele lhe ensinaram que bom pai de Santo nem mesmo precisava receber, mas sim de entender, e por isso fora letrado, nos búzios, colares, peneiras, voduns, inquices e orixás. Entender ele entendia, bem mais até que alguns doutor que vira e mexe vinha fazer ‘estudo’, pedia licença pra freqüentar o ilê, gravar os cânticos, tirar fotos para defender alguma coisa, ‘fazer justiça e proteger sua gente e sua cultura’, diziam, então ele permitia, afinal não era filho de Xangô à toa. Mas no domingo à tarde, com a família rodeada em frente à televisão, o povo já com a preguiça da segunda, que vinha à galope levar todo mundo a correr ganhar o pão, nessa hora de quase silêncio, na ressaca de uma engira até de madrugada, Eustáquio se encostava no muro da varanda, olhava o mar ao longe e pensava em todas as dúvidas sobre as quais nunca falava.
- E se fosse tudo aquilo uma imaginação das gentes? Uma que ainda boa, que dá força, alento, faz sonhar e seguir adiante, mas mesmo assim, não mais real do que faz uma criança ao acreditar no Papai Noel?
- Se tudo no fundo não bastasse de uma questão de fé, do mesmo jeito que uma missa ou um muçulmano faria dentro da mesquita?
-Se a sacralidade não estivesse, assim como a beleza, além dos olhos de quem vê?
- E se a mediunidade fosse um dom em extinção, e sendo ele um que não a tinha, e poucos, segundo sua visão, talvez a tivessem dentro do seu salão, e somente a esses coubesse o intermédio do mágico e do divino?
- Seria ele, mesmo que a contragosto, um charlatão?
- E se a única pessoa bruxa mesmo que todos ali conheceram fosse mesmo Vó Saninha, que mesmo agora morta ainda controlasse a todos eles, como dentro de um feitiço, um bem bem-feito daqueles que diziam que ela fizera em sua juventude, virando um sino de cabeça pra dentro e emborcando um padre inteiro dentro, que lhe proibira entrar dentro da igreja com seu cortejo?
- E se fosse verdade o que lhe diziam, que gostava de homem porque lhe haviam passado Xangô na frente de Logunedé, que era de fato seu orixá de cabeça?
- E se todos os deuses, de todas as mitologias do mundo fosse só os outros nomes dos orixás? E se os orixás fossem só os deuses de todas as outras mitologias do mundo batizados com um nome africano?
- E se tivesse ele nascido em São Paulo em uma família judia, teria mesmo que cumprir essa ‘missão’ segundo lhe diziam, de manter aberta as portas aos necessitados de axé que um dia a avó abrira?
Eustáquio sofria as penas de ser um indagador, e como todo aquele que questiona por compulsão, amiúde não encontrava respostas para suas indagações e em breve começava a padecer de um grave tormento chamado “A Perdição no Labirinto dos Questionamentos”.
Mas ele não era o único sacerdote desassossegado em sua fé...
To be continued...
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