quarta-feira, 20 de outubro de 2010

As Eleições e o Messianismo Brasileiro

De fato, faço jus à realidade que inspirou alguém a dizer que "o castigo daqueles que não se interessam por política é serem governados pelos que se interessam".

É com vergonha assumida que assumo meu desprezo por assuntos como política e futebol, ainda que eu compreenda a óbvia relevância do assunto, mas sempre procurei me dar como alguém cujo dever está cumprido ao estudar atentamente as propagandas do horário político antes de escolher meus candidatos (sim, eu sou uma espécie em extinção!) e votar ostentando uma postura solene.

Sim, é simplório, eu admito. Uma atitude pequena demais ante as necessidades urgentes de nossa nação, de nosso país. Mas, já que nem todo mundo tem obrigação de ser esportista, espiritualizado, intelectual, artista ou ter um apurado senso de moda, por que eu deveria ser, além de tudo, politizada?

Ainda assim, consciente de minhas falhas, faço o que posso para,pelo menos, não embaçar ainda mais o meio-de-campo crítico em que nos encontramos, e realmente me esforço para encontrar bons candidatos. Sou daquelas que tende a votar nas pessoas e considerar os candidatos individualmente, em detrimento da filosofia do partido, embora me recuse a votar em determinadas legendas. Faço isso porque, no frigir dos ovos, todos vão prometer as mesmas coisas: melhora na educação, na saúde, na segurança pública, aumento do salário mínimo e a diminuição do desemprego.

Entretanto, eleição após eleição, nos deparamos com uma realidade triste: os piores, com raras exceções, são os que chegam eleitos aos cargos. Sobretudo aos cargos de maior importância. Em muitas ocasiões cidadãos que jamais seriam eleitos pelas vias normais, assumem postos de comando indicados por alguém que lhes devia favor e foi eleito, e então, depois, popularizado, esse cidadão se candidata e pode até mesmo se eleger, como se houvesse tido, de fato, uma carreira política que o abalizasse para tanto.

Como isso pode acontecer?

Além do desinteresse da imensa maioria do povo brasileiro por qualquer coisa mais séria do que uma partida de futebol ou comentar a vida dos possíveis ganhadores (?) de um reality show, resta o grave problema da falta de memória do povo, que é capaz de eleger hoje, o criminoso de ontem. Mas no pano de fundo de tudo isso está algo muito mais sério e mais difícil de resolver: o messianismo latente do povo brasileiro.

Ao longo dos meus 37 anos de vida, por algumas vezes, tive a oportunidade de ver candidatos exibirem não apenas um currículo digno, como um discurso coerente no horário eleitoral, verdadeiro e sem sensacionalismo. Obviamente essas pessoas não foram eleitas. Por quê?

Muito simples: porque não disseram o que o povo queria ouvir. Não prometeram que acabariam com o problema X ou Y, mas pelo contrário, explicaram que o problema não poderia ser resolvido do dia para noite e necessitaria, obrigatoriamente, do envolvimento da sociedade como um todo em busca de melhorias para aquela questão específica.

Acontece que o brasileiro tem uma relação de compra e venda com político, e não, não estou falando de venda de votos, mas de algo mais parecido com a relação que você tem com as pessoas de quem compra um serviço. Quando você contrata um encanador, alguém pra arrumar seu computador ou pra lhe mandar uma pizza, você não quer saber como ele fará o serviço, se enche de ouvir os detalhes técnicos e não está nem um pouco interessado no custo benefício das calorias X nutrientes da pizza; você só quer que a pia não vaze, que o pc funcione e que sua barriga pare de roncar. Pra isso você pagou, e os problemas são de quem lhe prometeu o serviço feito e com garantia.

As más notícias são: Bem, com os políticos, se quisermos mesmo ver alguma mudança positiva acontecer no país, essa relação vai ter de mudar!

A culpa é nossa sim, porque eles nos tem tratado, há décadas, exatamente como queremos ser tratados, prometendo fazer o impossível, (preferencialmente com a maior campanha de mídia disponível garantindo os resultados)sem nos dar os detalhes sórdidos e entediantes de como isso poderia ser levado a cabo!

Parabéns para nós! Conseguimos chegar a esse ponto de desespero eleitoral, graças a esse nosso pensamento de que, se os compramos, elejendo-os, eles resolverão tudo para nós sem que tenhamos de nos preocupar mais com seja lá o que for....

É o messianismo brasileiro, o desejo pela volta de um Antonio Conselheiro, do Rei Arthur, de Jesus Cristo em pessoa se possível, do Obi Wan Kenobi (muitos prefeririam o Darth Vader), do Elvis, ou mesmo a vinda dos extraterrestres 'do BEM' para "dar um jeito nas coisas".

Enquanto continuarmos evitando o dia de assumirmos responsabilidade pela realidade caótica que criamos e esperarmos soluções milagrosas caídas do ceú, ou obtidas nas urnas, continuaremos elegendo 'falsos profetas', pessoas que prometerão aquilo que sabem que não podem cumprir (e, por Deus, se alguma delas de fato acreditar qeu pode, é sinal de que está mais do que na hora de interná-la pois a megalomania já terá chegado a níveis patológicos irreversíveis!) mas que o fazem porque sabem que é assim que neste país se vence uma eleição.

Por que um texto sobre política num blog cujo foco é espiritualidade?

Muito simples: não há evolução espiritual sem ampliação da consciência, e quem está desperto, sabe qeu uma atitude de inconsciência se manifesta e reverbera em todos os setores: dos relacionamentos íntimos às políticas públicas.

As quimeras ainda não nos destruíram mas já tiraram muito de nossas forças.

O poder do Um e do Agora precisa ser retomado até formar uma corrente de mudanças que começa, sim, pela tomada de consciência deste padrão de pensamento errado que nos levou até o buraco onde estamos.

Mas fundo do poço tem mola, como já provaram nações muito menos providas de recursos do que a nossa.

Basta para começar, parar de delirar com a possibilidade de eleger heróis, mocinhos, santos e cowboys - pior ainda os vilões repaginados - e entender de uma vez por todas que a velha história de 'roubar dos ricos para dar aos pobres' não é verdadeira, e provavelmente o candidato que diz isso está sendo patrocinado exatamente por aquele rico que o deseja no poder...

Portanto o Robin Hood também não é melhor opção.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010