sábado, 31 de julho de 2010

O Caminho do Xamã

O caminho do xamã
Não é ingreme, mas é escarpado
Não é solitário, mas requer o silêncio interior
Não é dificultoso, mas exige perseverança
Não tira nada além do que é desnecessário e atrapalha

E também nada acrescenta ao que a alma já não tenha
Mas devolve, ao herdeiro, o que é seu por direito

O caminho do xamã percorre água, fogo, terra e ar
Há testes, batismos
Um tempo de assentamento e outro de aprendizado

Percorre o tempo no sentido anti-horário
Resgatando o conhecimento para que assim
Desmembrado, ele possa ser reconhecido

Desvela o oculto não do ao redor
Mas do que está interno
E geralmente é a trava que impede o progresso de cada alma
Destrava o por dentro
E vendo o desmontado por fora
O filho da Terra consegue então
Remontar a realidade compreendendo-a melhor

A cabeça do xamã tem de ser lago sereno e cristalino
Onde as profundezas irrigam
Alimentando o corpo que é da Terra
Enquanto a superfície espelha todo o universo
A sabedoria estelar

Recebendo em si os animais que o visitam
Os que nele moram
E os que da sua água vem beber também para aprender
A relação do xamã é simbiótica com o Todo
Mas mantém a sua consciência individual
Pois ele tem de saber que a pedra e a árvore estão em si
Mas que ele não está ali contido ou limitado
Nem é somente pedra ou somente planta

O caminho do xamã reúne amigos
Mãos e bocas para compartilhar
E sustentar a avidez e a aridez da busca

O xamã é assistido por ascendências além das suas naturais
E da mesma forma deve assistir
Além do seu círculo comum
A quem no seu caminho pousar
E deve ampliar sua descendência
Muito além do seu sangue
E muito mais ainda além do seu amor

Para que aumentem as chances de
Todo aquele que busca encontrar
De todo o que procure achar
Cumprindo assim a profecia

Quando o professor está pronto
Aprendiz não falha
Quando o mestre acende a luz
Escuridão não tarda


Limpa o peito e acende a alma
Filho de céu, rochas e ar
Que a Lua que te apascenta e o Sol que te incendeia
Não cessam de clarear
Teu caminho que há eons
Aguardamos tua coragem para trilhar
No alto da montanha esperamos
Tua chegada para celebrar

Tua vitória sobre si mesmo
E a posse dos bens que estavam a te aguardar


Hô!

Cidadania Cósmica



A cidadania que a poesia exalta
é mais que poesia, é prece
É a cidadania dos tempos de eleição
a que o político enaltece
e o povo desconhece.

A cidadania que o poeta escreve
é retrato de precisão:
É precisa dentro do sonho
e nos bueiros da favela do alemão

É mais que um tema de doutorado
ou que seus créditos de mestrado.
Extrapola as aulas de sociologia
e aparece no prato da menina desvalida

Cuja mãe é só mais uma faminta nas filas do Bolsa Família.

A cidade que se cala
culpa a elite e o governo.
Esconde a face pra não ver
o desamor virulento.

"Que que eu posso fazer" - tu dirias
"A culpa é do povo" - te ressentes

Mas só desse ao qual, tu achas, não pertences!

Ergue o olhar, muda a face
de vergonha para esperança.
Pega a pá e a vassoura, o prato, a pena e a lucidez.

Não te arvores ser imune que a enchente te pega de vez!

Corre, apressa, o tempo passa!
Quando vires, já morreis...

Mas a terra que te acolhe abençoa o que tu se fez.

"A Terra é viva!", tu escutastes
A "Hipótese Gaia" já leste...

Não te iludas que haja tempo quando tempo não mais resta.

As futuras gerações não estão no futuro
São presentes em tuas glândulas nesta mesma manhã
São sussurros... "não se engane! não há tempo!"

O ontem deles já morreu sem que os filhos dos teus filhos soubessem o que se perdeu.

A cidade que de dia te aquece
é fria pedra nas madrugadas
é quando ela sonha que com as cidades - primas do interior se parece.

Banco de praça e ar puro, gramado e riacho atrás do portão...

Ela sonha, mas que engraçado...
quando acorda está sozinha
pois seus filhos se mandaram...

É feriado! Se foram para uma outra cidadezinha.

"Relaxar é o que mais quero, sair dessa poluição!"

Está certo, meu amigo, boa viagem, então.
Vou torcer pra que te inspires e retornes renovado
decidido a uma mudança para o próximo feriado.

Que com um vizinho ou outro, tu te cubras de amor
numa igreja, clube ou ONG, em alguma associação
com a família ou solitário, tu te ponhas em ação.

Porque a cidadania que o país precisa
é mais do que a cidadania do poeta
que é precisa em sentimento
mas sozinha não faz festa.

A cidadania qeu nos falta
não é governamental nem ideal,
não é regional ou internacional.

É uma cidadania cósmica
comigo e contigo bem no centro do universo.
Onde se joga o jogo da vida e da morte,
onde se vê o risco e não se conta com a sorte.

Onde acontece o ontem, o hoje e o amanhã tudo ao mesmo tempo

Onde se guarda a semente,
onde o conhecimento e o que a gente faz
reverbera para sempre.

Porque a cidadania que eu quero
não é aquela que aparece em época de eleição.
A cidadania cósmica nasce dentro do seu coração.

E pode até ser feita de clichês... mas não dispensa as tuas mãos.





Destino X Livre Arbítrio